Radis publica entrevista sobre o documentário "Falcão, os meninos do tráfico" com Marcelo Rasga Moreira, sociólogo e doutorando em saúde coletiva pela ENSP/Fiocruz e meu melhor amigo desde os tempos da infância querida. 

Marcelo Rasga: o poder público deveria investir pesadamente nos conselhos sociais

 

 

O tráfico não pode
ser a única opção

 

Marinilda Carvalho*

 

O documentário Falcão, Meninos do Tráfico, do rapper MV Bill e do produtor Celso Athayde, foi exibido em 19 de março no programa Fantástico, da TV Globo, e causou enorme repercussão. Cientistas sociais, educadores, parlamentares, ministros, muita gente apareceu na imprensa para manifestar surpresa e revolta com a situação de milhares de crianças entregues ao crime e à droga na periferia das grandes cidades. Passados 20 dias, um nada surpreendente silêncio — é o que costuma acontecer com a maioria desses "fenômenos" midiáticos.

Surpreendente mesmo foi a idéia de "novidade" que cercou o documentário. Pesquisadores de diversas instituições estudam há décadas as condições de vida dos jovens em ambiente de violência. Entre eles está a coordenadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Ensp/Fiocruz), Cecília Minayo, que liderou esforço coletivo pela inclusão da violência na agenda do SUS. E também o sociólogo Marcelo Rasga, doutorando em Saúde Coletiva da Ensp/Fiocruz, onde integra o Departamento de Ciências Sociais. Seu grupo de pesquisa, criado pelo professor Otávio Cruz Neto, já falecido, debruça-se desde 1994 sobre as iniqüidades sociais que esmagam os jovens da periferia. Esse trabalho, que Marcelo consolidou na dissertação de seu mestrado, em 2000, foi publicado em 2001 no livro Nem soldados nem inocentes — Jovens e tráfico de drogas no Rio de Janeiro (Editora Fiocruz), cuja autoria dividiu com Otávio e Luiz Fernando Mazzei Sucena.

 

 

 

"Quem trabalha com a questão da violência identifica desde os anos 1980 a clara influência do tráfico de drogas no aumento da mortalidade de jovens, a ponto de se tornar a maior causa de morte de adolescentes, principalmente do sexo masculino, negros e mulatos", diz Marcelo em entrevista à equipe do RADIS. Ele saúda o surgimento de documentários como Falcão, pois significa que alguém disse "chega de falar, eu quero fazer". Mas considera o episódio preocupante do ponto de vista do impacto dos estudos acadêmicos nos meios de comunicação e na própria sociedade. "Por que não conseguimos fazer com que isso se torne popular?", pergunta.

"A academia já teve muita dificuldade para falar à população, hoje tenta romper essa barreira", afirma. Por exemplo, o livro Nem soldados nem inocentes. "Uma editora disse que não faria a co-publicação porque não é um tema vendável... e é uma editora que se diz pioneira nas questões sociais".

Escrito por Socador às 14h49
[ ] [ envie esta mensagem ]

 (continuação)

 

 

A lógica da guerra

 

 

O grupo avalia, para o Ministério da Saúde, como chega o SUS aos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas em unidades de atendimento. Os resultados geraram artigos, monografias, dissertação até que se chegou ao livro, metade com depoimentos de jovens, metade com reflexões sobre os caminhos do tráfico de drogas ao longo do século passado até tornar-se tão poderoso no Rio. "Esse foi o mote, um olhar teórico conjugado a uma visão prática", conta. "A conclusão é que é necessário, a par do trabalho sobre as condições de vida desses adolescentes, discutir o tráfico e aquilo que todos chamam de guerra ao tráfico".

A proposta é que se acabe com essa lógica da guerra, "uma guerra que se ganha quando eu ocupo a capital do meu inimigo e o domino". Ela só traz problemas à sociedade e aos estratos mais pobres, diz Marcelo. Para ele, há um número muito restrito de pessoas no crime em meio a um monte de gente honesta. Pelas estimativas, menos de 1% dos jovens entra para o tráfico, mas a capacidade de estrago é enorme. "Esse adolescente causa danos à própria saúde, isso se expande à família, à sociedade".

Segundo o sociólogo, "pega-se dos depoimentos dos meninos aquilo que é mais espetacular" — justamente o caso do documentário de MV Bill, editado pela emissora de TV. Mas eles dizem várias outras coisas sobre si mesmos: que precisam de emprego, de apoio, de políticas públicas, de educação... "E ninguém leva em conta". Também não são inocentes, entende Marcelo, porque fazem a opção de entrar para o tráfico. "São seres humanos, não se deve satanizá-los nem inocentá-los, precisamos humanizá-los". São pessoas que diante de determinada situação tomam determinadas opções. O problema está nessas opções, diz. "A possibilidade de escolha é totalmente constrangida: bate-se muito no poder público, mas temos que chamar a atenção também para o mercado, que já lhes disse não, estão proscritos".

A pesquisa constatou que vários adolescentes fizeram cursos, buscaram aquilo que o mercado formal chama de "construir o currículo". Nenhum conseguiu emprego. "O mercado disse claramente: não quero esses adolescentes! Por outro lado, diz claramente: quero o dinheiro desses adolescentes!" Isso porque quando têm dinheiro, e vão consumir, são adorados. Os pesquisadores estimaram quanto dinheiro esses jovens "reinvestem" no mercado formal de roupas, equipamentos de eletrônica, celulares, cinema, motel. "É um volume que, se retirado de uma vez, abala a economia de um bairro, de um município".

Marcelo duvida de que 10 empresários dêem emprego a adolescentes, por exemplo, do Instituto Padre Severino (unidade correcional do Rio). A sociedade deixa essa obrigação ao poder público, diz. Mas o mercado também pressiona o poder público por recursos, porque as políticas econômicas têm que garantir o funcionamento do mercado, tem que haver superávit primário, pagamento de juros. "Então, o mercado briga nas duas frentes, e a gente bate só no poder público; temos que bater no mercado também".

 

 

Que sociedade é essa?

 

 

A grande pergunta que esses estudos suscitam é: que sociedade é essa que admite que jovens entrem no tráfico de drogas em plena idade produtiva? Espanta o sociólogo que, no Brasil, um prefeito ou governador possa ser preso se descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas pode descumprir o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), descumprir a Constituição, não dar educação nem saúde. "E nada acontece a ele". Em sua opinião, o país tem um arcabouço legal desenvolvido que acaba não funcionando: o ECA até hoje não foi aplicado em sua plenitude. O estatuto prevê, assim como o SUS, um sistema de atendimento descentralizado, com controle social, prevenção e promoção, diferentes níveis de atenção, o sistema socioeducativo. "Temos conselhos municipais e estaduais de saúde em todo o país, mas os conselhos tutelares e dos direitos da criança e do adolescente não estão disseminados em todo o Brasil" (Radis 44).

Além da escola, hoje também deteriorada, o que exige forte investimento na recuperação das condições de vida e de trabalho do educador, nesse programa ideal de resgate entram ainda a arte, a música, o esporte, a cultura. "Mas precisamos ter muito cuidado com a visão de que o adolescente pobre só pode ser jogador de futebol ou cantor de pagode", alerta Marcelo. "Nunca se diz que esse adolescente pode ser desembargador, sociólogo, jornalista..."

 

Escrito por Socador às 14h49
[ ] [ envie esta mensagem ]

(continuação)

 

 

Analogia incomum

 

 

O pesquisador recorre a uma analogia — pouco comum na área sanitária — com o Programa Saúde da Família do SUS, estratégia positiva com um risco embutido: o de um programa pobre para pobre. "Se a pessoa atendida nunca é referenciada por um serviço de média e alta complexidade, de qualidade, de ponta, outros terão atendimento melhor", teme. "Arte, esporte e lazer são fundamentais no dia-a-dia de um adolescente envolvido com o tráfico e têm grande poder de transformação, mas isso não é tudo". A associação entre pobreza e criminalidade é outro perigo crescente. Criminalidade e violência, enfatiza, estão espalhadas nas diferentes camadas da sociedade de diferentes formas.

Nesse contexto, os pesquisadores dão ênfase igualmente a uma política de segurança que resgate o poder da polícia, "isso é inevitável na questão do tráfico", afirma Marcelo. Mas apenas combater o tráfico não resolve o problema dos adolescentes: hoje, o tráfico é a única opção desses meninos; em outros lugares do Brasil, a opção é a prostituição, porque as iniqüidades sociais colocam os jovens diante de alternativas que beneficiam uma grande rede mundial de comércio ilegal, que se aproveita desse quadro. "Vários autores não separam mais tráfico de drogas, tráfico de seres humanos: é tráfico", diz. "São corredores internacionais que atravessam vários países e por ali passam drogas, seres humanos, biopirataria, armas". Marcelo prevê, inclusive, que em 10, 15 anos nem o tráfico seja mais opção de vida para eles. A expansão das drogas sintéticas, por exemplo, pode tornar desimportante o lucro deste tipo de comércio.

Essa realidade crua enfrenta outra pressão: a do cidadão de classe média que aprova a presença do Caveirão (Radis 43) nas favelas e acha que bandido bom é bandido morto. Na opinião do sociólogo, este cidadão está atônito com a violência e precisa de algo concreto. "E nada mais concreto do que a repressão: ela é muito palpável, o apelo mais fácil", diz. "Mas, a partir do momento em que há resultados positivos das políticas públicas, a sociedade muda de visão". Como nas demais áreas da cidadania: "Quando a classe média se preocupar com a rede pública de ensino, teremos outro nível de discussão do ensino; quando a classe média se preocupar com o SUS, teremos outro nível de discussão do SUS".

O uso exacerbado da repressão desvaloriza a repressão, acredita Marcelo. "Hoje, as pessoas não mais se chocam diante de um adolescente morto com três tiros na cabeça". Para ele, uma boa política de segurança usa a repressão com toda a certeza, mas no momento certo, como último recurso. "Política de segurança é, acima de tudo, policial bem pago, treinado, inteligência e tecnologia; se não há esses recursos, o que resta é a ação repressora imediata".

Sem debate, a sociedade pressiona e ignora a violência a que está sujeita, por exemplo, uma mãe cujos quatro filhos não têm aulas porque não há professor, mora num barraco em encosta ameaçada, o marido teve um derrame. Chega a prefeitura e cobra obras que custam 1.000 reais — "esse fato nós presenciamos". O que ela faz? O mercado lhe disse não. A quem ela recorre? Ao traficante. Essa mãe não gosta do traficante. O filho dela de 2 anos pula valas, boca-de-fumo, gente morta... "E querem que essa criança tenha o mesmo nível de opção que a minha filha que está na creche com 5 meses? A vida que ele conhece é essa: é muito fácil, daqui a alguns anos, marginalizar".

Nesse resgate, segundo Marcelo, o apoio à família é essencial, o que inclui o apoio ao pai (ver box). Algo aconteceu na sociedade brasileira que desgastou o papel do pai, entende Marcelo. "Provavelmente tem relação direta com a perda do papel do macho provedor, que tinha um emprego e colocava dinheiro na casa", diz Marcelo. A família hoje envolve outras pessoas, outros papéis, mas a mãe, seja ela tia, madrinha, avó, madrasta, precisa ser aliviada de certas obrigações e desempenhar o papel primordial na saída do adolescente do tráfico. "E o SUS precisa atender mais as necessidades psicológicas das pessoas, a questão da saúde mental".

 

 

NÓ COMPLEXO

 

 

Esse nó é de uma complexidade atroz, diz Marcelo, tudo ligado às condições de vida: escola, saúde, urgência de políticas públicas, mercado, processo histórico. "É preciso compreender a essência do tráfico", entende, um mercado ilegal que funciona como grande empresa. "Tem vínculos com o mercado legal (a lavagem de dinheiro mostra isso), então temos que lidar também economicamente; a política de segurança tinha que chamar os bons nomes do mercado para ajudar".

A propaganda, hoje, vai para a culpabilização do consumidor, o que o afasta cada vez mais da discussão. "O discurso da culpa é péssimo, quem sente culpa se afasta", diz. Mas a responsabilidade une. "Temos responsabilidades como cidadãos, como atores políticos". Os pobres, afirma, dão show quando compartilham responsabilidades, ajudando uns aos outros. O nível de solidariedade é tão grande que reduz a capacidade de influência do tráfico, observa.

Se não houver aproximação com a sociedade para debate dessas questões elas não serão superadas, diz Marcelo. Por exemplo, descriminalizar o uso da droga, isto é, o consumo deixar de ser crime é uma coisa. "Outra coisa é liberar, tornar legal", condena. "O Brasil seria o único país com comércio de drogas livre, viria toda a repressão do mundo para cá", prevê. Para ele, tornar o comércio legal não acaba com o tráfico no morro. Se não se consegue controlar pirataria de cigarro e CD vai controlar de droga? "Não vai, só vai ficar mais caro".

Para Marcelo, o poder público deve investir pesadamente nos conselhos sociais, de saúde, tutelares, dos direitos da criança e do adolescente, de escolas, de segurança alimentar, de assistência social, para trabalhar em rede e chamar a sociedade civil organizada à responsabilidade. "Por aí podemos começar uma mudança na estrutura política do país", com ajuda do Ministério Público, da Controladoria Geral da União. "Não digo para abandonarmos a política partidária, mas o nosso grande avanço será unir as duas formas de política: a partidária e a cidadã". (è)

 

 

* Participaram da entrevista Aristides Dutra, Bruno Camarinha Dominguez, Claudia Rabelo Lopes e Júlia Gaspar

Escrito por Socador às 14h47
[ ] [ envie esta mensagem ]

"Ô LÊ LÊ   Ô LÁ LÁ

ZICÃO VEM AÍ,

O BICHO VAI PEGAR"!!!

 

O JOGO DE HOJE ENTRE JAPÃO E ALEMANHA FOI SÓ UM TIRA-GOSTO DO QUE SERÁ O FUTEBOL JAPONÊS NESTA COPA.

 

A TORCIDA NIPO-RUBRO-NEGRA, A MAIOR DO MUNDO, ESTÁ NA EXPECTATIVA. É BOM ESTES CANARINHOS FRESQUINHOS GOLEAREM A CROÁCIA E A AUSTRÁLIA, CASO CONTRÁRIO, VÃO SE COMPLICAR.... 

Escrito por Socador às 22h39
[ ] [ envie esta mensagem ]

Histórico

Visitante número: