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Analogia incomum
O pesquisador recorre a uma analogia — pouco comum na área sanitária — com o Programa Saúde da Família do SUS, estratégia positiva com um risco embutido: o de um programa pobre para pobre. "Se a pessoa atendida nunca é referenciada por um serviço de média e alta complexidade, de qualidade, de ponta, outros terão atendimento melhor", teme. "Arte, esporte e lazer são fundamentais no dia-a-dia de um adolescente envolvido com o tráfico e têm grande poder de transformação, mas isso não é tudo". A associação entre pobreza e criminalidade é outro perigo crescente. Criminalidade e violência, enfatiza, estão espalhadas nas diferentes camadas da sociedade de diferentes formas.
Nesse contexto, os pesquisadores dão ênfase igualmente a uma política de segurança que resgate o poder da polícia, "isso é inevitável na questão do tráfico", afirma Marcelo. Mas apenas combater o tráfico não resolve o problema dos adolescentes: hoje, o tráfico é a única opção desses meninos; em outros lugares do Brasil, a opção é a prostituição, porque as iniqüidades sociais colocam os jovens diante de alternativas que beneficiam uma grande rede mundial de comércio ilegal, que se aproveita desse quadro. "Vários autores não separam mais tráfico de drogas, tráfico de seres humanos: é tráfico", diz. "São corredores internacionais que atravessam vários países e por ali passam drogas, seres humanos, biopirataria, armas". Marcelo prevê, inclusive, que em 10, 15 anos nem o tráfico seja mais opção de vida para eles. A expansão das drogas sintéticas, por exemplo, pode tornar desimportante o lucro deste tipo de comércio.
Essa realidade crua enfrenta outra pressão: a do cidadão de classe média que aprova a presença do Caveirão (Radis 43) nas favelas e acha que bandido bom é bandido morto. Na opinião do sociólogo, este cidadão está atônito com a violência e precisa de algo concreto. "E nada mais concreto do que a repressão: ela é muito palpável, o apelo mais fácil", diz. "Mas, a partir do momento em que há resultados positivos das políticas públicas, a sociedade muda de visão". Como nas demais áreas da cidadania: "Quando a classe média se preocupar com a rede pública de ensino, teremos outro nível de discussão do ensino; quando a classe média se preocupar com o SUS, teremos outro nível de discussão do SUS".
O uso exacerbado da repressão desvaloriza a repressão, acredita Marcelo. "Hoje, as pessoas não mais se chocam diante de um adolescente morto com três tiros na cabeça". Para ele, uma boa política de segurança usa a repressão com toda a certeza, mas no momento certo, como último recurso. "Política de segurança é, acima de tudo, policial bem pago, treinado, inteligência e tecnologia; se não há esses recursos, o que resta é a ação repressora imediata".
Sem debate, a sociedade pressiona e ignora a violência a que está sujeita, por exemplo, uma mãe cujos quatro filhos não têm aulas porque não há professor, mora num barraco em encosta ameaçada, o marido teve um derrame. Chega a prefeitura e cobra obras que custam 1.000 reais — "esse fato nós presenciamos". O que ela faz? O mercado lhe disse não. A quem ela recorre? Ao traficante. Essa mãe não gosta do traficante. O filho dela de 2 anos pula valas, boca-de-fumo, gente morta... "E querem que essa criança tenha o mesmo nível de opção que a minha filha que está na creche com 5 meses? A vida que ele conhece é essa: é muito fácil, daqui a alguns anos, marginalizar".
Nesse resgate, segundo Marcelo, o apoio à família é essencial, o que inclui o apoio ao pai (ver box). Algo aconteceu na sociedade brasileira que desgastou o papel do pai, entende Marcelo. "Provavelmente tem relação direta com a perda do papel do macho provedor, que tinha um emprego e colocava dinheiro na casa", diz Marcelo. A família hoje envolve outras pessoas, outros papéis, mas a mãe, seja ela tia, madrinha, avó, madrasta, precisa ser aliviada de certas obrigações e desempenhar o papel primordial na saída do adolescente do tráfico. "E o SUS precisa atender mais as necessidades psicológicas das pessoas, a questão da saúde mental".
NÓ COMPLEXO
Esse nó é de uma complexidade atroz, diz Marcelo, tudo ligado às condições de vida: escola, saúde, urgência de políticas públicas, mercado, processo histórico. "É preciso compreender a essência do tráfico", entende, um mercado ilegal que funciona como grande empresa. "Tem vínculos com o mercado legal (a lavagem de dinheiro mostra isso), então temos que lidar também economicamente; a política de segurança tinha que chamar os bons nomes do mercado para ajudar".
A propaganda, hoje, vai para a culpabilização do consumidor, o que o afasta cada vez mais da discussão. "O discurso da culpa é péssimo, quem sente culpa se afasta", diz. Mas a responsabilidade une. "Temos responsabilidades como cidadãos, como atores políticos". Os pobres, afirma, dão show quando compartilham responsabilidades, ajudando uns aos outros. O nível de solidariedade é tão grande que reduz a capacidade de influência do tráfico, observa.
Se não houver aproximação com a sociedade para debate dessas questões elas não serão superadas, diz Marcelo. Por exemplo, descriminalizar o uso da droga, isto é, o consumo deixar de ser crime é uma coisa. "Outra coisa é liberar, tornar legal", condena. "O Brasil seria o único país com comércio de drogas livre, viria toda a repressão do mundo para cá", prevê. Para ele, tornar o comércio legal não acaba com o tráfico no morro. Se não se consegue controlar pirataria de cigarro e CD vai controlar de droga? "Não vai, só vai ficar mais caro".
Para Marcelo, o poder público deve investir pesadamente nos conselhos sociais, de saúde, tutelares, dos direitos da criança e do adolescente, de escolas, de segurança alimentar, de assistência social, para trabalhar em rede e chamar a sociedade civil organizada à responsabilidade. "Por aí podemos começar uma mudança na estrutura política do país", com ajuda do Ministério Público, da Controladoria Geral da União. "Não digo para abandonarmos a política partidária, mas o nosso grande avanço será unir as duas formas de política: a partidária e a cidadã". (è)
* Participaram da entrevista Aristides Dutra, Bruno Camarinha Dominguez, Claudia Rabelo Lopes e Júlia Gaspar