Aos companheiros e companheiras do mandato

Desde o meu primeiro mandato como vereador da cidade do Rio de Janeiro (1987), tenho adotado como norma fazer prestação de contas das minhas ações políticas realizadas no Legislativo, junto aos movimentos sociais e na construção do Partido. Durante muitos anos com o Gabinete de Rua e depois semanalmente, todas as sextas-feiras, no Buraco do Lume, no Centro da cidade. Inicialmente também participavam Milton Temer, então deputado federal, e Chico Alencar, então deputado estadual. Atualmente, realizamos atividade semanal conjunta de prestação de contas e de discussão de temas políticos no Buraco do Lume com os mandatos Chico Alencar deputado federal e o Alessandro Molon deputado estadual.

Na prestação de contas, que sempre considerei como dever do mandato, além da informação de nossas ações, denunciava as práticas condenáveis ocorridas na Câmara e aproveitava a oportunidade para mostrar, através da diferença, o compromisso do PT com a ética, a seriedade e a responsabilidade na gestão das políticas públicas onde ele era governo. Sem dúvida alguma, eu entendo que essas práticas contribuem para fazer crescer, fortalecer e consolidar o Partido e seu projeto político para o país.

Há muito tempo, vêm ocorrendo procedimentos questionáveis de alguns dirigentes do Partido e muitas vezes atitudes inadmissíveis. Nesses casos, o nosso mandato sempre foi para o enfrentamento, denunciando internamente e exigindo o fim de tais atitudes, na maioria das vezes sem o coro necessário para ser ouvido.

No ano 2002, após três tentativas, Lula candidato pelo Partido dos Trabalhadores ganha a eleição para a Presidência da República com esmagadora maioria de 61,2% dos votos válidos. Em menos de três anos o Partido e o Governo patrocinam uma crise moral e política, frustram todas as expectativas geradas durante 25 anos de sua existência, fazem o povo assistir ao desmoronar de tudo que se construiu nesse tempo e, perplexo, acreditar que o medo é que venceu a esperança.

Essa situação gerou insatisfação para grande parte da população brasileira. Para o mandato, o incômodo e o desconforto tornaram-se cada vez mais difíceis. Eram constantes as cobranças nas ruas de eleitores sobre qual a posição política que o mandato pretendia adotar diante das irregularidades praticadas pelo PT. Já havia também um descontentamento em relação às políticas praticadas pelo governo Lula.

As demandas por uma posição mais elucidativa diante da situação crítica foram aumentando e o mandato discutiu a crise em várias de suas reuniões internas. Decidiu-se coletivamente não fazer uma plenária, mas realizar reuniões nas casas das pessoas, quando solicitado. Neste sentido, foram realizadas algumas reuniões com grupos de petistas e eleitores do mandato. Também consideramos importante a nossa presença nas plenárias dos mandatos do deputado federal Chico Alencar e do deputado estadual Alessandro Molon, com o objetivo de ouvir opiniões que serviriam de base para o caso de uma decisão.

Nós julgávamos como saída honrosa para essa crise, a realização de um debate amplo e democrático com todas as forças formadoras do PT para identificar as causas que o levaram a práticas totalmente contrárias aos seus princípios e à ética que sempre afirmou como fundamental na sua ação política. Nessa tentativa acreditávamos estar contribuindo para criar condições necessárias e suficientes para reverter essa tendência de fim desmoralizante, buscando o caminho de sua origem. Dessa maneira entendíamos existir ainda uma esperança.
Nessa ocasião, surge uma excelente oportunidade para ampliação da discussão: o Processo Eleitoral Democrático (PED) com objetivo de eleger os diretórios municipal, estadual e nacional, e seus respectivos presidentes. Durante todo o PED foram realizados debates para aprofundamento das questões pertinentes à crise moral e política que desgastava, e muito, o Governo e principalmente o Partido.

Para a presidência do Diretório Nacional inscreveram-se sete candidatos, além das chapas para os diretórios com suas respectivas teses. Vale ressaltar, que o candidato de uma das chapas pertencente ao chamado Campo Majoritário, Ricardo Berzoini, defendia as políticas econômica e de alianças adotadas pelo Governo Lula, e representava todos aqueles que estão envolvidos nos escândalos apurados pelas três CPIs instaladas no Congresso Nacional.

A chapa nacional apoiada por mim, e divulgada para os meus eleitores, tinha como presidente o companheiro Plínio de Arruda Sampaio com longa e digna história de vida política a serviço das causas populares. Aqui, no Rio de Janeiro para o Estadual, foi indicado o companheiro Ewerson Cláudio e para o Municipal nossa indicação foi o companheiro Luís Carlos França, militantes históricos do Partido que nos davam a certeza de nas referidas presidências corresponderem às nossas esperançosas expectativas.

Escrito por Socador às 08h40
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O resultado finalmente chega como mais uma frustração, pois a chapa do Campo Majoritário tem cerca de 42% dos votos e seu candidato deverá ser o presidente eleito em segundo turno, sendo todos legitimados para dirigir os destinos do Partido, com a hegemonia na definição das políticas, como já indica o total apoio anunciado por outras correntes. Perdemos todas.

Este resultado significa mais uma brutalidade, talvez mortal, que se comete com o PT, mas que em nada altera o meu compromisso com a transformação exigida pela sociedade. Entretanto, como vereador do PT, não vislumbro qualquer possibilidade de continuar contribuindo politicamente para a construção do mundo justo, solidário e fraterno que tanto sonhamos.

O professor e teólogo gaúcho Ivo Poletto, em recente declaração, afirmou que “Se por suas opções e erros, o PT e o governo não mais forem as mediações que deveriam ser, outras mediações de esquerda deverão ser criadas. E os aprendizados desta crise, assim como das anteriores, deverão estar presentes no passo adiante que deverá ser dado”.

Diante de tudo isso, meu próximo passo político para seguir adiante será solicitar minha desfiliação do Partido dos Trabalhadores e me filiar ao Partido Socialismo e Liberdade.
Não foi uma decisão fácil, pelo contrário, foi sofrida e com muita dor.

Jamais deixarei de reconhecer a importância que teve o PT na minha trajetória política, assim como o valor de militantes petistas. Mesmo que não adotem a mesma decisão que eu, reconheço em cada um deles o companheiro que certamente encontrarei em lutas futuras pela construção do socialismo.
 
Sempre seu fraterno companheiro
                                                        
                                                             Eliomar Coelho                                                         

Escrito por Socador às 08h33
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Foto: Adília Pautilene

Meu parceiro Nininho é o mais disputado do Brasil. As meninas enlouquecem.

 

 

 

Escrito por Socador às 10h02
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FSP 29/05/05
Uma visão sistêmica da educação
FERNANDO HADDAD


Nas últimas décadas, desenvolveu-se visão fragmentada da educação como se
níveis, etapas e modalidades da educação não fossem momentos de um processo,
cada qual com objetivo particular, mas dentro de uma unidade geral.
Criaram-se falsas oposições. A mais indesejável foi a oposição entre
educação básica e superior. Diante da falta de recursos, caberia ao gestor
público optar pela primeira. Sem que a União aumentasse o investimento na
educação básica, o argumento serviu de pretexto para asfixiar o sistema
federal de educação superior, cujo custeio foi reduzido em 50% em dez anos,
e inviabilizar a expansão da rede. O resultado para a educação básica: falta
de professores com licenciatura para exercer o magistério e alunos do ensino
médio desmotivados pela insuficiência de oferta de ensino gratuito nas
universidades públicas.

Criaram-se falsas oposições na educação. A mais indesejável foi a oposição
entre educação básica e superior


A segunda oposição não foi menos danosa e se estabeleceu no nível da
educação básica, formada pela educação infantil, ensino fundamental e médio.
A atenção exclusiva ao ensino fundamental resultou em certo descaso com as
outras duas etapas e prejudicou o que se pretendia proteger. Sem que se
tenha ampliado a já alta taxa de atendimento do ensino fundamental (93% em
1994), verificou-se uma queda no desempenho médio dos alunos dessa etapa.
Sendo a educação infantil e o ensino médio, respectivamente, o esteio e o
horizonte do ensino fundamental, sem eles este não avança.
Esse aspecto remete à terceira oposição, agora entre ensino médio e educação
profissional. Foi vedada por decreto a oferta de ensino médio articulado à
educação profissional e proibida por lei a expansão do sistema federal de
educação profissional. A educação profissional integrada ao ensino médio é a
que apresenta melhores resultados pedagógicos ao promover o reforço mútuo
dos conteúdos curriculares. Aquelas medidas desarticularam importantes
experiências de integração. Num país em que apenas 35% dos jovens entre 15 e
17 anos se encontram matriculados no ensino médio, foi um erro desprezar o
apelo da educação profissional para mantê-los na escola.
Por fim, uma quarta oposição. As ações de alfabetização da União nunca
estiveram sob a alçada do MEC e jamais foram articuladas com a Educação de
Jovens e Adultos (EJA). Atacava-se o analfabetismo, não o analfabetismo
funcional. Promoviam-se campanhas com ONGs, e não programas estruturados de
educação continuada em parceria com os sistemas municipais e estaduais. Além
disso, perdia-se de vista a elevada dívida educacional com grupos sociais
historicamente fragilizados.
Nos últimos 20 meses, todo esforço empreendido pelo MEC, em parceria com
Andifes, Consed, Undime, UNE, Ubes, movimentos sociais etc. foi no sentido
de superar essas oposições, guiado agora por uma visão sistêmica. E suas
ações foram reorientadas em torno de quatro reformas: educação superior,
básica, profissional e continuada.
A reforma da educação superior recuperou 80% das verbas de custeio das
federais e restabeleceu sua capacidade de investimento (com a criação ou
futura consolidação de 36 pólos universitários públicos). Com atraso de 16
anos, foram reguladas as isenções fiscais constitucionais concedidas às
instituições privadas, permitindo a concessão de 112 mil bolsas de estudos
no âmbito do Prouni e a ampliação do Fies. Pretende-se ainda garantir a
autonomia das federais, num sistema dinâmico que premia o mérito
institucional, e regular o setor privado que, sem marco legal estável, viveu
expansão caótica.
A reforma da educação básica passa pela aprovação do Fundeb, pela adoção do
ensino fundamental de nove anos, pela formação inicial e continuada de
professores, pela Escola de Gestores, pelo apoio aos conselhos e dirigentes
municipais de educação e pela conexão entre o censo por aluno aliado à
avaliação universal de desempenho (Projeto Presença).
A reforma da educação profissional é mais que uma contra-reforma. Não
bastaria apenas reverter as medidas tomadas. Era preciso dar conseqüência ao
disposto na LDB. Levou-se educação profissional ao ambiente de trabalho (558
escolas de fábrica) e se ampliou o acesso de jovens e adultos à educação
profissional. O Proeja orienta o sistema federal a oferecer educação
profissional integrada ao ensino médio na modalidade EJA, e o Projovem
orienta os sistemas municipais nessa mesma direção quanto às séries finais
do ensino fundamental.
A reforma da educação continuada completa a visão sistêmica. Com a criação
da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, foi
possível articular a integração do programa de alfabetização com a EJA das
séries iniciais do ensino fundamental, permitindo ao alfabetizando alcançar
o mínimo de quatro anos de escolaridade.

Fernando Haddad, 42, advogado, professor licenciado de ciência política da
USP e autor de vários livros, entre eles "Trabalho e Linguagem" (azougue,
2004), é ministro da Educação.

enviado por Marcelo Rasga

Escrito por Socador às 08h23
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