Descaminhos do Setor Elétrico
1- "Começamos a escrever este texto. O computador está ligado, a luz
acesa,o ventilador de teto ajuda a diminuir o calor. Estamos consumindo
energia.
Aqui, no Rio de Janeiro, ela é entregue em nossa casa pela Light, uma
distribuidora que foi privatizada há cerca de seis anos. A Light precisa
comprar energia de uma geradora. Na última vez em que negociou no mercado
de geração, encontrou a oferta de Furnas, uma empresa estatal que opera
usinas hidrelétricas; Furnas se propôs a entregar energia à Light pelo
preço de R$ 50,00 o megawatt-hora (MWh). Encontrou também a oferta da
Norte Fluminense, uma empresa privada que opera uma usina termelétrica;
para entregar o mesmo megawatt-hora, a Norte Fluminense cobrou R$ 150,00.
A Light
optou por comprar energia da Norte Fluminense. Primeiro motivo: para ela,
essa opção é indiferente, pois as regras da Agência Nacional de Energia
Elétrica (Aneel) permitem que as distribuidoras repassem aos consumidores
100% do preço que pagam às geradoras. Segundo motivo: a Norte Fluminense
é
do grupo Light. Assim, nós, consumidores, somos forçados a comprar a
energia mais cara.
2- Fique calmo, estimado leitor. Você está apenas na porta do hospício.
Pois, se neste instante formos visitar a usina termelétrica contratada
pela Light, ela estará desligada, entregue às atenções de um sonolento
grupo de vigias, entretidos talvez num jogo de damas. A eletricidade que
estamos consumindo está sendo colocada na rede por Furnas, por ordem do
Operador Nacional do Sistema (ONS), que coordena a operação física do
sistema. O ONS tomou essa decisão porque viu que a eletricidade de
Furnas é muito mais barata. Furnas, porém, não foi contratada pela Light,
de modo que sua energia está sendo remunerada pelo preço do mercado
livre,
o qual está excepcionalmente baixo - apenas R$ 18,00 -, pois há sobra de
energia no país.
Quando minha conta de luz chegar, eu pagarei à Light um valor que tem
como
base aqueles R$ 150,00 que ela contratou da Norte Fluminense, ou seja, de
si mesma. A Norte Fluminense, que permaneceu desligada, repassará R$
18,00
a Furnas, que produziu a energia. A diferença será inteiramente embolsada
pelo Grupo Light. Além de distribuidor, como se vê, ele é gigolô de
energia. Com todo o respeito!!!!.
3- Os nomes e números citados acima são reais. A mesma situação
repete-se
país afora. É assim que funciona hoje o sistema elétrico brasileiro, que
já foi referência mundial de segurança e racionalidade. Para conseguirmos
entender como
chegamos a isso, teremos de ver, muito sucintamente, a história desse
sistema, o desastre da privatização feita por Fernando Henrique Cardoso,
a
situação encontrada pelo governo Lula e as decisões deste governo".
Escrito por às 15h41
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