HOJE TEM...

BAR SECRETO.

Escrito por Socador às 08h38
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Fernando Calazans



   calazans@oglobo.com.br


O fim de Garrincha

Assim como quem não quer nada, muito modestamente, vou discordar aqui do meu cantinho dos caros companheiros da primeira página e da editoria de esportes do GLOBO que, a propósito do encontro entre Pelé e Maradona na Argentina, decretaram ontem que eles foram os dois maiores jogadores de todos os tempos, e pronto. Quer dizer: quem existiu antes de Maradona foi pro espaço!

Teve apagada sua passagem pela face da Terra. Foi desterrado para sempre da memória dos homens.

A afirmação revela algo novo ou pelo menos algo que eu ainda não tinha observado: a fortíssima influência argentina sobre a opinião pública brasileira ou sobre a opinião da imprensa brasileira. Ao menos no futebol. Já sabia, é claro, da influência americana, estudada e discutida há mais de um século. Sabia da influência européia. Quer dizer: da influência do que se convencionou chamar de Primeiro Mundo, uma vez que ainda hoje guardamos resquícios da nossa condição de colonizados.

Agora: que éramos dominados também pela opinião e pela cultura argentina — isso eu não sabia.

Imagino então que chegará o dia em que, por ser mais novo e de atividade mais recente do que Pelé, e que portanto haverá no mundo mais gente que o viu jogar do que gente que viu o gênio brasileiro em ação — imagino que chegará o dia em que nós mesmos, brasileiros!, vamos concordar com os argentinos que Maradona foi maior e melhor do que Pelé. Não falta muito.

Sim: porque já achamos — e nem discutimos mais — que Maradona foi maior e melhor do que Garrincha. Por enquanto, já achamos isso. Mas isso os argentinos sequer discutem. Os argentinos discutem, e a maioria simplesmente afirma categoricamente — e nós sabemos que afirma — que Maradona foi maior do que Pelé. A continuar assim, qualquer dia os brasileiros estaremos discutindo isso também — quem foi melhor, Pelé ou Maradona? — até engolirmos, pela tal influência argentina que eu ignorava, que o maior foi Maradona.

***

Há, é claro, uma explicação para a afirmação dos meus amigos da primeira página e da editoria de esportes: a imensa maioria não viu Garrincha jogar. Explica, mas não justifica.

Outro amigo, por exemplo, jornalista do GLOBO também, reagiu com a seguinte frase: “Eu não vi o Garrincha. Mas li o Garrincha”. É frase de grande sabedoria, que jornalistas mais jovens até do que ele deveriam seguir.

Se, além de ler, ouvissem os jornalistas que viram Garrincha jogar, não o condenariam hoje ao esquecimento e ao desterro.

Gabriel Hanot viu Garrincha jogar. Para quem não sabe, Hanot é considerado o maior dos cronistas esportivos franceses, entre outras coisas o criador da Copa da Europa. Ele assistiu à estréia de Garrincha na Copa de 58, na Suécia. Em cinco minutos, os primeiros cinco minutos de jogo com a então URSS, os primeiros cinco minutos de Garrincha numa Copa do Mundo, nosso ponta mandou duas bolas na trave e deu o passe para o primeiro gol de Vavá, depois de driblar a defesa adversária. E Hanot escreveu: “Foram os cinco minutos mais sublimes da História do futebol”. Até do ponto de vista pragmático, Garrincha foi genial. Maradona ganhou uma Copa para a Argentina? Pois Garrincha ganhou duas para o Brasil — 58 e 62.

Hoje, por incrível que pareça, os brasileiros somos os primeiros a banir Garrincha do mapa do futebol.

Escrito por Socador às 14h13
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