Corrida Perdida


 Cristovam Buarque


            Nos anos 70 e 80, poucos escutavam os que afirmavam que países como Irlanda, Coréia e Espanha deixariam o Brasil para trás, por causa dos seus investimentos em educação. No Brasil, sucessivos governos mantiveram a velha crença de que a porta de entrada para a modernidade era a fábrica e a industrialização, e não a escola e a educação. Aqueles países investiam nas duas coisas, mas enfatizando a educação; o Brasil também, mas favorecendo a indústria e a infra-estrutura.

            Trinta anos depois, a infra-estrutura brasileira era superior à daqueles países, e sua educação vergonhosamente inferior. Agora eles já têm uma infra-estrutura melhor, mas com um povo educado, capaz de levar adiante seu projeto de modernização.

            O Brasil perdeu a corrida para uma dezena de países que não estavam à nossa frente no começo dos anos 70. E está perdendo para um muito próximo. O México, em dez anos, terá nos deixado para trás na corrida pela modernidade. E exibirá indicadores de educação e, conseqüentemente os demais, muito superiores aos brasileiros.

            Isso é o resultado de um movimento nacional pela educação, que vem passando de um governo para outro, independente do partido dominante. Desde os governos anteriores ao Presidente Vicente Fox, a educação vem sendo tratada como assunto federal. O piso salarial dos professores, por exemplo, é pago pelo governo federal. Daí a força do sindicato nacional de professores, que têm um só patrão. Governos locais podem complementar os salários de seus professores, dependendo das finanças dos estados ou municípios, mas a base maior dos salários é federal. Nenhum governo quis mudar essa política.

            Em 1997, inspirado no programa do Distrito Federal e de em algumas cidades brasileiras, o Presidente Zedillo adotou a bolsa-escola, pagando um valor decente às famílias, cerca de US$20 por criança, com um rigoroso controle da freqüência às aulas. Ao assumir o governo, o Presidente Fox, que era de oposição, manteve o programa intacto. Criou ainda um programa nos moldes do Poupança Escola, implantado no Distrito Federal na gestão de 95 a 98, que prevê um depósito anual em caderneta de poupança para a criança que for aprovada e se matricular na série seguinte, sendo o saldo retirado após a conclusão do ensino médio.

            No dia 4 de janeiro, o Presidente Fox sancionou uma lei que obriga o setor público mexicano a gastar no mínimo 8% do PIB com educação, quase o dobro do que o Brasil vai gastar este ano, 4,5 %. Essa lei recebeu, na Câmara de Deputados, 373 votos a favor, um contra e uma abstenção.

            É essa disposição de todos que coloca esses países à frente do Brasil. É a nossa falta de disposição para fazer da educação um vetor do nosso desenvolvimento e da qualidade de vida do nosso povo que nos deixa para trás. Com respeito a alguns países que eram iguais a nós, esse atraso já é definitivo.

            Isso não se dá por falta de quem defenda a educação. Não se explica que o país de Paulo Freire, símbolo mundial da luta contra o analfabetismo, apresente um dos maiores índices de analfabetismo do mundo; ou que a escola básica do país de Anísio Teixeira enfrente situação tão vergonhosa; ou que a universidade do país de Darcy Ribeiro seja tão descomprometida com a causa da educação. E ninguém entende porque um país que fez tamanha virada eleitoral à esquerda mantenha o rumo e a lentidão que vêm desde os anos 60, atrás do resto do mundo, aumentando essa brecha educacional e, conseqüentemente, perdendo a corrida para o futuro.

Escrito por Socador às 13h10
[ ] [ envie esta mensagem ]

Gente,

Obrigado pelas preces e orações, Papai já está em casa e se recupera muito bem.

Também muito agradecido a Papai do Céu. 

Escrito por Socador às 10h30
[ ] [ envie esta mensagem ]

Histórico

Visitante número: